Estudo projeta perdas de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e questiona a eficácia do plano de cortes de gastos de quase R$ 200 bilhões
Intitulado A proposta do ajuste fiscal de R$ 200 bilhões: impactos sobre o emprego, a renda e os trabalhadores, o levantamento simula as consequências de cortes concentrados em despesas públicas, incluindo benefícios previdenciários e sociais, gastos com pessoal e outras despesas do governo federal.
Emprego e renda entre os principais impactos
De acordo com a simulação do DIEESE, os cortes poderiam eliminar aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho no primeiro ano de implementação, previsto para 2027. O estudo também projeta uma redução de 1,55% no Produto Interno Bruto (PIB), perda de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e diminuição de R$ 46,8 bilhões na arrecadação tributária.
O documento considera um ajuste de R$ 116,9 bilhões no primeiro ano e de R$ 175,4 bilhões em 18 meses. Somada a esses valores a meta de superávit primário de R$ 18,6 bilhões prevista no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, a dimensão total do ajuste chegaria a aproximadamente R$ 194 bilhões.
Benefícios sociais e serviços públicos sob pressão
A análise estima que a execução de cortes dessa magnitude exigiria mudanças expressivas na composição das despesas federais. Na simulação, 51% da redução recairia sobre transferências de renda, como aposentadorias, abono salarial, seguro-desemprego e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Outros 17% atingiriam despesas com pessoal, enquanto 32% seriam aplicados às demais despesas.
Segundo o DIEESE, a magnitude do ajuste poderia pressionar políticas públicas e comprometer a capacidade de investimento do Estado. O relatório também aponta possíveis efeitos sobre os serviços públicos, os salários dos servidores e a expansão de programas sociais.
Embora Flávio Bolsonaro tenha afirmado que pretende preservar benefícios sociais e os recursos mínimos constitucionais destinados à saúde e à educação, o estudo questiona como essas garantias seriam mantidas diante da dimensão dos cortes anunciados e da possibilidade de mudanças por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
Risco de desaceleração econômica e aumento do desemprego
O levantamento apresenta dois cenários para 2027. No cenário otimista, que considera crescimento econômico de 2,46% antes do ajuste, a expansão do PIB cairia para 0,91% após os cortes. Mesmo nessa hipótese, a geração de empregos seria insuficiente para acompanhar o crescimento da população economicamente ativa.
No cenário pessimista, baseado na projeção de crescimento de 1,4% do Boletim Focus, do Banco Central, a economia registraria retração de 0,15%. Nessa hipótese, o estudo estima saldo negativo de aproximadamente 271 mil postos de trabalho e aponta que a taxa de desemprego poderia subir para 6,5% a 7%, com o número de desocupados passando de 5,8 milhões para 7,4 milhões.
Economia nos gastos pode não garantir equilíbrio fiscal
Outro ponto central do relatório é a possibilidade de que a redução das despesas seja parcialmente anulada pela queda da arrecadação tributária. Com menor atividade econômica, redução do consumo e perda de renda, o governo recolheria menos impostos, limitando os resultados esperados do ajuste.
Na simulação, a perda estimada de R$ 46,8 bilhões em receitas consumiria cerca de 40% da economia bruta prevista para o primeiro ano. O DIEESE avalia que, nessas condições, os cortes não seriam suficientes para garantir a estabilização da dívida pública em relação ao PIB.
O estudo argumenta ainda que o peso dos juros da dívida pública precisa ser considerado no debate fiscal e critica a concentração do ajuste em despesas sociais e administrativas, sem medidas equivalentes sobre juros, subsídios fiscais e benefícios tributários.
Fonte: DIEESE — Síntese Especial nº 25, de 22 de outubro de 2026. A proposta do ajuste fiscal de R$ 200 bilhões: impactos sobre o emprego, a renda e os trabalhadores.

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